Em artigo, ex-petista diz que presidente
teria tentado abusar de colega na prisão; outros presos
contestam
Roldão Arruda, Leonencio Nossa, Felipe
Werneck e Marili Ribeiro
"Isso é coisa de psicopata, só a psicopatia pode
explicar", disse ontem o chefe de gabinete da Presidência
da República, Gilberto Carvalho, ao comentar acusações
feitas pelo cientista político e ex-militante petista
César Benjamin contra o presidente da República, Luiz
Inácio Lula da Silva. Em artigo publicado na Folha de
S. Paulo, Benjamin - que não quis comentar o assunto
ontem - afirmou que Lula tentou abusar sexualmente de
um colega de cela, quando esteve preso no Dops, em 1980.
Carvalho também relatou que o presidente
ficou "triste" ao ler o artigo. "Ele
disse que é uma loucura", afirmou.
Benjamin ajudou a fundar o PT e se
manteve ligado ao partido até 1995. No artigo publicado
ontem, ele se dedica sobretudo ao relato da convivência
com os presos nos anos em que ficou encarcerado, na
ditadura militar, por causa de suas posições políticas.
Enfatiza que, apesar de ser muito jovem e de ter convivido
com presos comuns, nunca sofreu nenhum tipo de abuso
sexual. A ênfase é uma espécie de contraponto ao que
vem a seguir, sobre Lula.
O autor narra um encontro que teria
tido, em 1994, com Lula, então em campanha. Na ocasião,
o ex-líder sindical lhe teria feito perguntas sobre
a prisão e revelado que não suportaria o isolamento
- por não conseguir viver sem relações sexuais com mulheres.
Em seguida, Lula teria narrado a tentativa
de violação sexual do companheiro de cela. O trecho
do artigo de Benjamin é claro: "Para comprovar
essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia
tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara
detido. Chamava-o de "menino do MEP", em referência
a uma organização de esquerda que já deixou de existir.
Ficara surpreso com a resistência do "menino",
que frustrara a investida com cotoveladas e socos."
E prossegue: "Foi um dos momentos mais kafkianos
que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato,
eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos
assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos
comuns considerados perigosos, condenados a penas longas".
A conversa, segundo Benjamin, teria
ocorrido durante um almoço, com a participação de mais
três pessoas: o publicitário Paulo de Tarso Santos,
que coordenava campanha; um segundo publicitário, cujo
nome o autor não recorda; e um americano, também não
nomeado - que não entendia português.
Procurado para falar sobre o artigo,
o publicitário Paulo de Tarso Santos respondeu com uma
nota, na qual confirmou o almoço, em caráter informal,
e nomeou o americano. Era o publicitário Erick Ekwall,
indicado pelo empresário Oded Grajew para ajudar na
campanha. Disse, no entanto, não lembrar da presença
de Benjamin no almoço, assim como qualquer comentário
sobre o tema citado. "Não compreendo qual a intenção
do articulista em narrar os fatos como narrou (como
disse, sequer me lembro de sua presença na mesa)",
escreveu.
Lula foi detido pela polícia política
no dia 19 de abril de 1980 e libertado no dia 20 de
maio. Nesses 31 dias chegou a dividir a cela com até
18 pessoas. Um de seus companheiros mais jovens, com
23 anos, era o atual presidente do PSTU, José Maria
de Almeida - na época militante da Convergência Socialista.
Ontem, após ler o artigo, ele comentou: "Tenho
motivos para atacar o Lula. O seu governo é uma tragédia
para a classe trabalhadora. Mas isso que está escrito
não aconteceu. O Benjamim viajou na maionese. Não me
lembro sequer de que havia alguém do MEP preso conosco."
MEP era a sigla do Movimento de Emancipação
do Proletariado, tendência que surgiu em 1976 e cujos
principais dirigentes ficavam no Rio. Entre seus militantes
encontrava-se o presidente do PT, José Eduardo Dutra.
Ontem ele classificou o artigo de "repugnante".
Na opinião do ex-dirigente sindical
Djalma Bom, que foi preso com Lula, seria impossível
uma tentativa de violência sexual ter passado despercebida.
"O Benjamin enlouqueceu. Ou entendeu errado alguma
conversa do Lula". O vice-presidente da União Geral
dos Trabalhadores, Enilson Simões de Moura, o Alemão,
também esteve preso na mesma época. Após classificar
o comentário de Benjamin como "absurdo", ele
disse, contrariando José Maria, que havia alguém do
MEP no grupo. "O que eu lembro é que, brincando
com uma bola de basquete, Lula acertou sem querer a
cara do rapaz do MEP", contou. Não lembrou, no
entanto, o nome do rapaz.