Pesquisa da UFRN estuda nossa capacidade de identificar
e nos lembrar de pessoas que já nos trapacearam
Adriana Amorim // adrianaamorim.rn@diariosassociados.com.br
Por que lembramos mais de pessoas trapaceiras
do que as que nunca nos fizeram algum mal? É provável
que o leitor ainda não tenha se questionado dessa forma,
mas certamente se recordará rapidamente de alguma traição
e de quem a provocou. Para o mestrando em Psicobiologia
Tiago Eugênio, a indagação foi o primeiro passo para
tentar entender, com base científica, os motivos por
trás dessa memorização. Através da pesquisa "Eu
me lembro de você? Evidência para melhor memória de
faces de trapaceiros", inserida na base de pesquisa
de Psicologia Evolucionista, da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte (UFRN), o pesquisador tem aplicado
métodos e aponta dados preliminares que justificam esse
aspecto do comportamento humano. Arte: Silvino/DN/D. A Press
"Um dia parei para pensar quanto tempo da minha
vida eu passo comentando sobre as possíveis pessoas
que me 'passaram para trás'. É incrível como a gente
se lembra melhor dos comportamentos de trapaça do que
dos altruístas", observou. Dentro das leituras
que buscou como possíveis referências, o pesquisador
destacou, dentre as poucas encontradas, a "Teoria
do Contrato Social", proposta por Leda Cosmides
e John Tooby em 1992. "Para esses autores, existiram
algumas faculdades cognitivas que teriam evoluído para
regular as trocas sociais, entre elas a nossa capacidade
de identificar os sujeitos e recordar dos mesmos",
diz, acrescentando que existem vários estudos nesse
sentido, mas muitos se contradizem. "Não existe
um consenso na literatura sobre esse assunto".
Como forma de obter dados concretos,
Tiago se utilizou de vídeos e aplicou o estudo com estudantes
de duas escolas de Natal, uma pública e uma particular.
"Exibimos oito vídeos com pessoas que simulam uma
entrevista de emprego e um narrador observador conta
uma história sobre aquele sujeito. Alguns são pessoas
boas e confiáveis. Já outras apresentam um perfil totalmente
de trapaceiro, de uma pessoa que não merece confiança".
Segundo ele, esta é a primeira experiência
nesse sentido a utilizar-se de vídeos. "Existem
vários estudos realizados com esse assunto, entretanto,
todos usam fotografias. Acredito que vídeos simulem
de forma muito mais eficaz a nossa realidade. Afinal,
nós não conhecemos as pessoas por fotos, mas sim com
mudanças de expressão e emoções", diz, observando
a presença de novas mídias sociais que podem contradizer
seu argumento. "É claro que hoje cada vez mais
a gente está conhecendo pessoas por fotos por meio de
Orkut, MSN, Gtalk, mas isso é muito recente, não faz
parte da nossa natureza biológica. Nossa mente é um
produto evolutivo de milhões de anos de seleção natural".
Dados preliminares
O participante da pesquisa faz uma
tarefa de distração e faz um teste de recordação de
faces. "O sujeito assiste a uma seção de 34 fotos,
sendo oito imagens capturadas dos vídeos e mais 28 de
pessoas estranhas, como forma de gerar a confusão no
participante. As pessoas preenchem um caderno de resposta,
nos indicando qual foto, dentre as 34, ele viu nos vídeos",
detalha, apontando que, defato, os adolescentes testados
se lembraram melhor dos sujeitos trapaceiros.
Para ele, a pesquisa é importante para
o conhecimento dos mecanismos biológicos que as pessoas
dispõem para construir suas relações sociais. "Ele
é importante para nós entendemos como nossa mente e
natureza está voltada justamente para evitarmos interações
custosas com possíveis trapaceiros", explicou.
O estudo, contudo, não é um teste que poderia ser adotado
por empresas e outros setores da sociedade, no sentido
de melhor escolher seus funcionários.
Defesa
Na opinião de Tiago Eugênio, a interação
com trapaceiros pode ser muito custosa, do ponto de
vista de que pode afetar a sobrevivência e a probabilidade
do sujeito se reproduzir e deixar descendentes. "Assim,
o processo de seleção natural, por certo, favoreceu
os indivíduos providos de mecanismos mais eficazes para
detectar possíveis trapaceiros. Saber quais são os sujeitos
com quem você pode contar e não pode contar é adaptativo,
pois com isso você pode direcionar melhor o seuinvestimento
para aqueles indivíduos que, por ventura, poderá no
futuro retribuir o seu investimento", analisou.