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EDUCAÇÃO
Transporte escolar precário afasta estudantes da sala de aula .
19/10/09 - 06:05

De Rebeca Casemiro do Jornal da Paraíba

Quem mora na zona urbana de uma cidade, especialmente uma bem equipada de instituições de ensino que contemplam todos os níveis da educação, do ensino infantil ao superior, não imagina as dificuldades que milhares de crianças e jovens passam diariamente para conseguir chegar às salas de aula. Escolas distantes, estradas ruins e, sobretudo, transporte escolar precário já fez com que muitos alunos abandonassem os estudos.

Essa é a realidade de vários municípios brasileiros e, infelizmente, a falta de qualidade no transporte escolar pode ser presenciada na Paraíba quase que de ponta a ponta. Os paus-de-arara, veículos abertos e sem a menor estrutura de segurança para os passageiros, continuam sendo utilizados para levar alunos da zona rural para a cidade e já fez com que muitos alunos desistissem.

“A gente chega na escola todo quebrado, com as costas doídas, muitas vezes, sujos de lama. Tem que ter muita força de vontade pra não desistir, por isso que tem tanta gente que não completa os estudos, pois é muito difícil”, relatou Saniel Silva, aluno do ensino fundamental de um escola estadual de Cuité, no Curimataú paraibano, que todos os dias percorre quase duas horas para chegar à escola.

A realidade também é grave para estudantes que vivem em cidades que não têm instituições de ensino superior e precisam se deslocar para municípios vizinhos com o objetivo de fazer uma faculdade e ter o futuro melhor. Como Campina Grande é uma cidade polo, acaba recebendo muitos alunos, mas nem todos conseguem chegar ao fim da graduação. Além do cansaço da viagem, a falta de transporte adequado faz com que o percurso seja inacabado para muitos.

Passar na peneira do vestibular hoje não é fácil e quando você pensa que passou a etapa mais difícil, tem início outra ainda maior. Assim foi para o estudante Lukas Emanuel, que cursa Geografia em Campina Grande e reside em Cubati, na região do Seridó. Ele revelou que já foi obrigado a trancar o curso por causa dos constantes defeitos no veículo que faz o transporte escolar. Ele, inclusive, disse que por várias vezes colegas seus pegaram carona até o trevo que dá acesso a Cubati, tendo que percorrer vários quilômetros para chegarem em suas casas.

“Somos estudantes e não temos condições de ficar pagando passagens nos ônibus de linha. Por vezes, pegávamos carona de localidade a localidade até chegar à faculdade, isso fez com que eu precisasse trancar a faculdade por um período. Acho que os governantes deveriam ter mais respeito com o futuro da nação”, desabafou Lukas Emanuel.

O mesmo aconteceu com o jovem Tiago Gomes, residente em Areia, no Brejo paraibano, que teve de desistir da graduação em História na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) ainda no primeiro período. Ele disse que a falta de manutenção e a precariedade no transporte foram os motivos que o levaram a desistir de estudar em Campina Grande, por não ter condições de pagar R$ 6 diariamente para vir à cidade estudar.

“Tirei a carteira de estudante e ela não havia chegado, então, como eu não tinha condições de pagar uma passagem inteira, abandonei o curso. O ônibus passava mais tempo quebrado do que funcionando e não temos como bancar xerox de apostilas, lanches e ainda pagar passagem de ida e volta todo dia”, lamentou o jovem.

Gestores reclamam da falta de recursos

O Ministério da Educação divide com Estados e Municípios, as despesas do transporte escolar, mas é quase unanimidade entre os gestores de que o repasse feito pela União não atende a demanda registrada pelos municípios paraibanos.

Segundo o secretário de Educação de Cubati, Ricardo Cavalcante da Silva, o gasto mensal do município com transporte escolar gira em torno dos R$ 27 mil, mas a União só repassa R$ 4,9 mil. “Então fica difícil a gente manter o melhor transporte para os nossos alunos, por isso que muitas vezes quando um ônibus quebra, não temos como consertar imediatamente”, mesmo assim, oito carros de linhas transportam alunos da zona rural do município e um ônibus para alunos que fazem faculdade em Campina Grande.

Para a secretária de Educação de Areia, Roseli Maria de Almeida Ribeiro, a falta de recursos é a principal dificuldade enfrentada pelos gestores para melhorar o transporte escolar. “A demanda é maior do que a verba e, com essa crise, a verba tem diminuído. Mesmo assim, mantemos ônibus para universitários com recursos próprios e procuramos não deixar faltar transporte para os alunos”, frisou.

Alguns gestores também contaram que o fato de terem alcançado bons resultados no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) têm prejudicado a reivindicação de mais verbas no MEC. De acordo com a secretária de Educação de Esperança, Marilene Diniz Rodrigues, existe uma demanda de quase 1.300 alunos que dependem do transporte escolar, mas a demanda requer cada vez mais verbas.

“O recurso é pouco e se quebrar um transporte desse complica, porque temos que locar um carro extra, providenciar o conserto e cobrir a despesa. A prioridade do MEC tem sido os municípios que ficaram abaixo da média no Ideb”, revelou.
Com relação ao governo do Estado da Paraíba, o secretário de Educação, Sales Gaudêncio, afirmou que todos os convênios para liberação de recursos para o transporte escolar já foram firmados no Estado, seja com as prefeituras ou com os Conselhos Escolares de cada município.

Ele lamentou o fato de ainda existirem alunos sendo transportados em paus-de-arara, mas disse que o fato ocorre pela geografia do país e falta de estrutura da região. “No Amazonas, por exemplo, você tem que usar canoas para transportar alunos, então essas disparidades, onde uns têm asfalto e outros nem sequer estradas, faz com que tenhamos ainda esse meio de transporte, mas sempre estamos tentando fazer o melhor para transportar os alunos com segurança”, disse.


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