Sem medo de perder o emprego e com a renda mais alta,
o brasileiro dá mais atenção aos investimentos em 2010
Vicente Nunes // vicentenunes.df@dabr.com.br
O aumento do emprego e da renda está
provocando uma revolução entre os brasileiros. Se até
bem pouco tempo a grande maioria não conseguia guardar
um centavo que fosse para garantir um futuro melhor,
agora é cada vez maior a preocupação em poupar, seja
para bancar a tão sonhada viagem ao exterior, seja para
pagar a faculdade dos filhos ou mesmo para a aposentadoria,
neste ano que se inicia. "Está havendo uma revolução
na cultura de poupança da população, apesar do endividamento
maior oriundo do crédito farto. E isso está sendo possível
porque a renda está aumentando e o Brasil consolidou
a estabilidade econômica. Ou seja, ficou mais previsível",
explicou o presidente da Associação Brasileira de Educação
Financeira, Edmilson Lyra.
Essa visão, segundo ele, está sustentada
nos resultados dos investimentos em 2009. Pelas contas
do Banco Central, a tradicional caderneta de poupança
registrou captação líquida (depósitos menos saques)
de R$ 30,4 bilhões, com o saldo em conta atingindo R$
319 bilhões. Foi o segundo melhor resultado anual desde
1995, quando começou a série histórica do BC - ficou
atrás apenas de 2007, com saldo positivo de R$ 33,4
bilhões. Nos fundos de investimentos, as aplicações
superaram as retiradas em R$ 87,6 bilhões, elevando
para R$ 1,366 trilhão o patrimônio dessa indústria no
país. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), 552.364
pessoas físicas - um recorde - responderam por mais
de 30% dos negócios diários.
"Felizmente, as pessoas estão
podendo consumir mais e ainda poupar. E não vejo mudança
nesse quadro nos próximos anos. Com a perspectiva de
crescimento da economia, veremos a poupança total dos
brasileiros, tanto em renda fixa quanto em ações, crescer
de forma acentuada", afirmou o professor Ricardo
Rocha, do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. "Isso
é bom, pois, com a poupança interna em alta, o Brasil
ficará menos dependente do capital estrangeiro para
crescer. As empresas poderão se financiar no país para
ampliar os parques produtivos", acrescentou Carlos
Antonio Magalhães, diretor da Sabe Consultoria.
Na avaliação do presidente da Associação
Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e
de Capitais (Anbima), Marcelo Giufrida, as famílias,
as empresas e os investidores estrangeiros que trazem
recursos para o país estão respondendo positivamente
ao respeito às regras. "Os marcos regulatórios
dos mercados foram aprimorados. A segurança jurídica
para os investidores se fortaleceu", assinalou.
Há que se ressaltar ainda a solidez do sistema financeiro
brasileiro, que passou bem pela mais grave crise mundial
desde 1929, e a especialização dos profissionais de
mercado. "Também está havendo um desejo crescente
dos investidores em se informar. E isso é visível, principalmente,
entre os mais jovens", emendou Carlos Magalhães.
Riscos maiores
Para o presidente da Associação dos
Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado
de Capitais(Apimec-DF), Alexandre Guimarães, os excelentes
números do mercado também serviram para enterrar o temorde
que houvesse uma fuga maciça de recursos dos fundos
de investimento para a tradicional caderneta, devido
à queda da taxa básica de juros (Selic) para 8,75% ao
ano. "Mesmo que as rentabilidades dos fundos e
da poupança tenham ficado muito parecidas, os perfis
de investidores são diferentes. Os que aplicam em fundos
aceitam correr um pouco mais de risco. Por isso, o crescimento
dos fundos de ações e dos multimercados", destacou.
No entender de Edmilson Lyra, com a
Selic no menor patamar da história, é natural que os
brasileiros queiram correr mais riscos para ampliar
a rentabilidade. E a melhor opção, segundo ele, é o
mercado de ações. "O crescimento da economia exigirá
mais investimentos em infraestrutura. As empresas fornecedoras
para esse segmento vão lucrar mais, o que valorizará
seus papéis nas bolsas. O mesmo acontecerá com as companhias
que fabricam bens de consumo, inclusive alimentos",
afirmou. Mas a receita é não ir com tanta sede ao pote.
"Nunca coloque todo o dinheiro no mercado acionário.
Diversifique investimentos e procure conhecer detalhes
das aplicações escolhidas", aconselhou.
Outra ressalva importante: que ninguém
espere mais valorizações anuais de 80% ou 100% da bolsa
de valores, como se viu em 2009, que foi um ano de correção
dos estragos provocados pela crise mundial detonada
pelo estouro da bolha imobiliária americana em setembro
de 2008. "É possível que a Bovespa feche 2010 nos
85 mil pontos. Se isso acontecer, será uma alta de 20%,
um resultado muito bom", disse o presidente da
Apimec-DF. Ele lembrou que os preços das ações no Brasil
já subiram muito nos últimos anos e para que a rentabilidade
venha será necessário esperar mais tempo - cinco ou
seis anos, por exemplo.
Aposentadoria
Segundo Carlos Antonio Magalhães, a
aposentadoria será a grande preocupação diante da incapacidade
do Estado de garantir um sustento decente aos mais velhos
por meio do Instituto Nacional do Seguro Social. "Essa
é a grande razão de vermos jovens entre 24 e 35 anos
entrando em peso no mercado de ações. Elessabem que,
como vão viver mais, precisam garantir uma poupança
que lhes garanta uma situação decente", afirmou.
Em 2009, pelos cálculos da Anbima, os fundos de previdência
complementar administrados pelos bancos registraram
captação líquida de R$ 23,4 bilhões.
Mas vale o alerta: não aceite taxas
de administração dos fundos superiores a 1,5% ao ano.
Qualquer índice acima desse patamar comerá uma parte
importante dos rendimentos, deixando-os, em muitos casos,
inferiores aos ganhos da poupança.