É difícil imaginar a cultura no Nordeste sem as tradições
surgidas a partir das festas realizadas durante o mês
de junho, que possuem como pano de fundo a devoção em
São João, São Pedro, e Santo Antônio, três dos principais
nomes da história do catolicismo. Mais do que o espetáculo
de mega-eventos e a alegria do forró pé-de-serra, as
festas juninas também têm um significado religioso bem
mais antigo, mas um processo contínuo de modificações
na forma de realização dos eventos têm ameaçado as tradições
religiosas da festa.
Na Paraíba, o mês de junho transforma cidades inteiras
com bandeiras, fogueiras e balões coloridos e arrasta
milhares de pessoas a eventos realizados em municípios
como Campina Grande (Maior São João do Mundo), Patos,
Santa Luzia e João Pessoa. Quadrilhas, comidas fabricadas
com o milho produzido nas próprias comunidades, e muito
arrasta-pé contagia e atrai turistas de várias partes
do país para o Estado.
O arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto, possui uma
opinião clara acerca da forma como as festividades juninas
são realizadas na atualidade. Ele acredita que o processo
de ‘marketização’ dos eventos põe em risco as tradições
culturais e religiosas do povo nordestino. “O caráter
das festas populares vai cedendo espaço para ambientes
“marketizados”. A ansiedade de empresários visando a
lucros leva-os a elaborarem esquemas que transmutam
as festas juninas, absorvendo-as na lógica do mercado
competitivo. A padronização das festas populares convenciona
formas de diversão que não geram o congraçamento entre
pessoas e famílias”, observa o arcebispo. Ele ainda
ressaltou que “os costumes e tradições populares mudaram,
porque nossas intuições e intenções são outras. A absorção
da espontaneidade popular cede para os condicionamentos
que acabam nos manipulando”.
De acordo com historiadores, as tradições estão relacionadas
com a festa pagã do solstício de verão (século XII),
que era celebrada no dia 24 de junho, e com o passar
do tempo foi cristianizada na Idade Média como “festa
de São João”. Em pouco tempo, as celebrações invadiram
praticamente todos os países da Europa cristã e chegaram
ao Brasil através dos portugueses, durante o processo
de colonização.
Para o bispo da Diocese de Campina Grande, dom Jaime
Vieira Rocha, as festas “contam com a agregação de valores
culturais do Nordeste” e coincidem com a época das colheitas
região. Ele lembrou que as festividades vêm passando
por modificações no decorrer dos anos, mas deve continuar
com o mesmo sentido, o de “servir como inspiração para
a vocação à santidade. Devemos sempre lembrar de São
João Batista como o santo que nos aponta para o sagrado”,
destacou o bispo.
João Batista, conforme a religião católica, foi o santo
responsável por anunciar a chegada de Jesus Cristo e
batizá-lo às margens do Rio Jordão. “Nem sempre os fiéis
se lembram dessa parte da história”, ressalta Dom Jaime,
preferindo apenas o apego às comemorações profanas das
datas.
FOGUEIRAS
Até mesmo o modo de organizar a fogueira mantém peculiaridades
em cada uma das festas. A fogueira em homenagem a Santo
Antônio é feita em formato quadrangular, enquanto a
de São João de forma cônica e com base redonda e a de
São Pedro triangular.
A tradição das fogueiras é cultivada inspirada em costumes
existentes nas montanhas de Judá, quando, devido à falta
de comunicação, os integrantes das comunidades acendiam
os utensílios para sinalizarem algum fato. Afirmam os
historiadores que quando o próprio João Batista nasceu
a sua mãe Isabel teria construído uma fogueira para
anunciar à Maria, mãe de Jesus, a sua chegada ao mundo.