Mudanças alimentares nos últimos 30 anos mostram que
o brasileiro não tem mais a noção do que é saudável
à mesa
Márcia Neri
A receita é simples e conhecida: a
boa saúde está diretamente relacionada à alimentação
balanceada. No entanto, hábitos alimentares saudáveis
estão cada dia menos presentes no cardápio de grande
parte da população. O acesso aos alimentos é maior,
mas os produtos mais consumidos são aqueles com baixo
valor nutricional. Para se ter uma ideia, o consumo
de refrigerantes no Brasil aumentou 400% nos últimos
30 anos. No mesmo período, as cadeias de fast food registraram
crescimento de 600%. Atualmente, a ingestão de frutas,
hortaliças, verduras, cereais e grãos pelos brasileiros
alcança apenas um terço dos 400g diários necessários
para prevenir o câncer e recomendados pela Organização
Mundial da Saúde (OMS). O descuido deixa adultos e crianças
doentes e sem proteção para lutar contra muitos males.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) relata que os
tipos de tumores malignos relacionados aos hábitos alimentares
estão entre as seis primeiras causas de mortalidade
relativa à doença no país. Nutricionistas e médicos
alertam que o brasileiro perdeu a referência do que
é saudável. As crianças são reféns de papinhas, sucos
industrializados, biscoitos e salgadinhos. Os jovens
são campeões no consumo de hambúrgueres, salsichas e
batatas fritas - produtos que oferecem riscos por terem
em sua composição níveis significativos de agentes cancerígenos.
Os idosos são levados pelo turbilhão da má alimentação,
não apreciam nem reconhecem o sabor do que está a disposição
nas prateleiras dos supermercados e em grande parte
dos restaurantes, mas acabam comendo o mesmo que filhos
e netos.
Má alimentação pode causar tumores
Para Fábio Gomes, nutricionista da
Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, a alimentação
industrializada está no cardápio mesmo em localidades
remotas ou interioranas, onde o consumo de legumes e
frutas regionais costumava ser maior. "O apelo
da publicidade da indústria alimentícia é devastador.
E isso pode ser observado tanto nas classes sociais
mais abastadas quanto nas menos favorecidas. Na cabeça
das pessoas, os produtos industrializados simbolizam
o desenvolvimento. Elas esquecem apenas que o custo
para a saúde é muito alto", pondera.
Gomes explica que o sal, os nitritos e os nitratos que
compõem os alimentos processados têm ação carcinogênica
e mutagênica. Em palavras simples, eles expõem o organismo
ao câncer e outras doenças. "Exatamente o oposto
ocorre no corpo de quem ingere frutas, legumes e cereais
em quantidades ideais. "Por diversos mecanismos,
esses itens inibem a mutação de células que desencadeiam
o câncer ou atuam de forma a dificultar a multiplicação
delas", revela.