Proporção
gasta por pobres com seguridade social é maior do que
a dos ricos .
06/07/09
- 06:26
da Agência Brasil
Brasília - Um estudo da Escola Nacional
de Ciências Estatísticas, ligada ao Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), confirma análises
sobre a injustiça tributária no Brasil. Segundo a dissertação
de mestrado do economista Erito Marques de Souza Filho,
os mais pobres gastam proporcionalmente mais renda do
que os mais ricos para o financiamento da seguridade
social (saúde, Previdência social e assistência social).
“Em nossos trabalhos, evidenciou-se
que quanto menor a faixa de renda maior proporção dela
é destinada para o financiamento da seguridade social.
Um indivíduo pertencente ao primeiro décimo da distribuição
de renda domiciliar per capita destina 9,4% de sua renda
[de R$ 71,52], enquanto para um indivíduo pertencente
ao ultimo décimo esse valor é de 1,09% [com renda per
capita de R$ 3.992,37]”, compara o economista, que também
é professor da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro.
A razão da distorção é que a base da
contribuição é formada por taxações que são repassadas
aos consumidores como a Contribuição Social sobre o
Lucro Líquido (CSLL), a Contribuição para o Financiamento
da Seguridade Social (Cofins) e a extinta Contribuição
Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF), cobrada
até 2007 e incluída na pesquisa de Marques.
Os valores cobrados das empresas são
repassados e estão embutidos nos preços finais das mercadorias,
como os produtos da cesta básica de alimentos. “Constatamos
que as despesas com alimentação correspondem a cerca
de 37% para os indivíduos pertencentes primeiro décimo
da distribuição de renda domiciliar per capita e de
33% para um individuo pertencente ao segundo décimo.
Além disso, a contribuição indireta de um domicílio
pobre corresponde a cerca de 20% do valor de uma cesta
básica”, calcula Marques.
O maior peso do custeio da seguridade
social sobre os mais pobres se manteve inclusive nos
últimos anos, considerados de crescimento da renda desse
estrato. “Esse crescimento permitiu que os pobres aumentassem
não somente seu consumo, mas também sua contribuição
indireta para a Seguridade”, explica o economista.
Para Marques, a distorção perpetua
a desigualdade e esvazia a função distributiva que deveria
ter o Estado. “O cerne da questão não está na quantia
paga pelos pobres ou pelos ricos, mas sim em como utilizar
adequadamente a política tributária, de modo a permitir
ao Estado prover satisfatoriamente esses serviços ditos
não mercantis a toda população. No caso brasileiro,
em função do elevado grau de desigualdade, não é possível
tornar equânime o acesso a esses serviços sem que haja
um processo de redistribuição vertical, dos mais ricos
para os mais pobres.”
Na análise do economista, a criação
do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), unificando impostos
federais e também o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias
e Serviços (ICMS), conforme previsto na proposta de
reforma tributária em discussão na Câmara dos Deputados,
não reverte a injustiça tributária. “A criação do imposto
sobre o valor agregado, além de não reverter a tendência
de maior ônus sobre os mais pobres, pode inviabilizar
um dos legados da Constituição de 1988: a garantia de
um orçamento próprio para a Seguridade independente
das oscilações do ciclo econômico”, alerta Marques.
Na opinião do economista, o sistema
tributário poderá ficar mais justo e distributivo se
houver a instituição de um Programa de Renda Mínima,
proposto pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), e desoneração
da cesta básica e alimentos em geral. “Isenções de impostos
sobre alimentos, em particular, ampliariam o consumo
e fomentariam o desenvolvimento econômico e social.
De uma maneira mais geral, qualquer isenção sobre bens
essenciais é sempre benéfica para os mais pobres.”
Marques avalia que a cobrança de impostos
sobre herança e grandes fortunas são ideias oportunas,
mas pouco viáveis na atual conjuntura. “Esses impostos
poderiam amenizar ou mesmo compensar a regressividade
do sistema tributário brasileiro. Entretanto, o maior
problema com relação a esses tributos é vencer a resistência
da elite econômica, que empreende esforços para deslegitimá-los”.
Na próxima terça-feira, a presidência
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulga,
em Brasília, nova análise sobre os efeitos da carga
tributária sobre a renda dos brasileiros.