Fernando
Collor confessa que foi ajudado pela Rede Globo .
16/11/09
- 06:12
Na série de reportagens especiais que
está divulgando a propósito dos 20 anos das primeiras
eleições diretas no Brasil após a ditadura militar,
o portal UOL trouxe neste domingo (15) uma entrevista
em que o senador Fernando Collor de Melo confessa que
a sua relação com a Rede Globo de Televisão o "ajudou
bastante" a vencer o pleito para presidente da
República numa histórica disputa com Lula.
Leia a reportagem:
"Ajudou, sem dúvida nenhuma ajudou.
Ajudou bastante." Dessa forma, o hoje senador pelo
PTB-AL e ex-presidente da República Fernando Collor
de Mello iniciou a resposta à pergunta se a relação
com a Rede Globo o ajudou nas eleições de 1989. "Ajudou,
sobretudo, a evitar armadilhas, algo que estivesse se
tentando montar contra a minha candidatura", completou.
Há 20 anos, no dia 15 de novembro de
1989, ocorreu o primeiro turno das primeiras eleições
presidenciais no Brasil após o fim da ditadura militar
(1964-1985).
Numa longa entrevista ao UOL Notícias
em Brasília, Collor tratou de vários dos tópicos mais
difíceis da sua campanha de 1989 à Presidência, pelo
PRN (Partido da Reconstrução Nacional).
Além da relação com a Globo, falou
sobre as pesquisas e as conversas que teve antes de
lançar-se candidato, inclusive com Silvio Santos, dos
problemas que teve no governo de Alagoas, da decisão
de pôr no ar o depoimento de Miriam Cordeiro na reta
final da campanha, da edição do polêmico debate do segundo
turno entre ele e Lula e do papel do tesoureiro Paulo
César Farias, o PC, em sua campanha.
Em 1992, após uma série de denúncias
de corrupção envolvendo seu governo e apontadas na CPI
do PC, o Congresso aprovou o impeachment de Collor.
Entre os que votaram pelo impeachment na Câmara estava
o então deputado Cleto Falcão, um dos articuladores
da candidatura de Collor - famoso por um brinde em Pequim
que festejou o governador de Alagoas como futuro presidente
do Brasil.
Collor afirmou também, na entrevista,
que, na véspera do segundo turno, ao saber de uma pesquisa
que o colocava apenas um ponto à frente de Lula, achou
que perderia a eleição.
Globo
"Dr. Roberto [Marinho, 1904-2003, empresário, dono
da Globo] era muito jornalista na sua essência",
disse Collor. "Em algumas conversas, ele chegou
a mim e disse, meu filho, acho que você está muito irritado,
você não deve usar certos termos, isso está indo contra
você", contou. Collor, no entanto, não quis repetir
os termos que Marinho recomendou que ele deixasse de
usar.
Na campanha de 1989, Collor ganhou
projeção com a imagem de um candidato que combateria
a corrupção e os altos salários do funcionalismo. Pare
desta imagem foi construída ainda à frente do governo
de Alagoas, quando Collor anunciou uma série de reformas
acompanhadas por uma economista chamada Zélia Cardoso
de Mello, indicada pelo ministro da Fazenda de José
Sarney (PMDB), Dílson Funaro, segundo Collor. Zélia
seria a ministra da Economia de Collor, responsável
pela implantação do Plano Collor, para tentar controlar
a inflação, e pelo "confisco da poupança"
e de outras aplicações financeiras em 1990.
Além da relação com a Globo, Collor
diz que sua candidatura foi vista como "simpática"
por outros grupos de comunicação. "O que eu percebia
é que havia um receio dos meios de comunicação mais
importantes é que um eventual governo comunista"
pudesse ter um efeito negativo sobre os meios de comunicação.
Na sua avaliação, esses grandes complexos
de comunicação estavam à procura de um candidato - e
o encontraram em Mario Covas (PSDB). Mas mesmo Covas
era tido por alguns deles como "ligado aos comunistas",
diz Collor, devido a posições que defendeu quando liderava
a bancada do PMDB na Constituinte de 1988.
A saída para o tucano teria sido fazer
o famoso discurso defendendo que o Brasil precisava
passar por um "choque de capitalismo". "Quando
fez o famoso discurso do choque de capitalismo, no Senado
Federal, esse pronunciamento foi feito de um modo pré-determinado",
para que os jornais televisivos entrassem ao vivo. As
chamadas nas TVs coincidiam, acha Collor, "com
o parágrafo mais pontiagudo do pronunciamento".
"Apesar disso, o candidato Mario
Covas não conseguiu passar essa mensagem para o eleitorado
e não decolou." Depois de Mario Covas, acha Collor,
houve uma tentativa com Ulysses Guimarães (PMDB). "Minha
candidatura foi de alguma maneira tida como simpática
porque não havia outra alternativa."
Collor foi chamado, numa capa da revista
"Veja", de "Caçador de Marajás".
A "Veja", depois, seria um dos veículos de
comunicação que publicariam uma série de denúncias,
apuradas por uma Comissão Parlamentar de Inquérito,
que levariam ao impeachment de Collor em 1992.
Segundo Collor, a palavra "marajá"
veio de um "popular", num comício à noite
no sertão. Ao referir-se a funcionários públicos que
tinham "supersalários", ele teria gritado:
"Não Fernando, é tudo marajá". "E aquela
palavra me soou como uma palavra mágica."
O rol de "palavras mágicas"
de Collor seria completado pela referência aos "descamisados"
e "pés-descalços". Estas duas expressões já
era usadas pelos peronistas argentinos para referir-se
às parcelas mais pobres da população e foram recuperadas
por Collor.
Ele, no entanto, afirma que essas palavras
não eram estudadas. "Na minha campanha não houve
marqueteiro", diz. Mas como, se Collor virou uma
espécie de sinônimo de candidato construído pelo marketing?
Com pausas entre cada uma das palavras, como se as estivesse
medindo, ele responde: "Talvez por terem entendido
que meus gestos e as minhas palavras fossem coisas estudadas,
o que na realidade nunca foram."
Collor avalia que foi o candidato que
melhor usou a mídia eletrônica. Na sua opinião, Lula
fica, nesse quesito, com o segundo lugar. "Lula
tinha uma música que era fantástica", lembra. "Dormia
e acordava cantando a música do Lula."
Para Collor, os apoios que recebeu
de grandes setores do PFL e do PMDB foram fundamentais
para que, mesmo à frente de um pequeno partido, pudesse
chegar à Presidência.
Segundo turno
Durante a entrevista, Collor defendeu que Brizola seria
mais difícil de bater que Lula - em especial porque
Brizola tinha mais penetração no empresariado. Por outro
lado, "era notória a indisposição que havia entre
o governador [do Rio] Brizola e Roberto Marinho".
Com relação ao uso de Miriam Cordeiro,
ex-companheira de Lula que deu depoimento no horário
eleitoral dizendo que o petista a pedira para fazer
um aborto na década de 1970, Collor classificou de lamentável
o episódio e chamou-o de "percalço de campanha".
Afirmou que ainda não faria novamente: "Nem teria
feito na época": "O candidato é o que menos
sabe do que vai no programa gratuito", disse. "Se
alguém tiver de ser responsabilizado serei eu como candidato.
O que eu digo é que eu não tomei conhecimento. Em última
analise, tudo que de ruim acontece numa campanha é o
candidato. Tudo que de bom acontece numa campanha, aí
é a equipe.
Ouvido pelo UOL Notícias, o responsável
pela campanha de Collor na TV, o publicitário Chico
Santa Rita, afirmou que Collor participou da decisão
de por o vídeo no ar.
Ainda sobre o segundo turno, Collor
disse acreditar que a edição do segundo debate entre
ele e Lula é fiel ao que aconteceu. "No primeiro
debate eu não fui bem. E isso ficou explícito na edição
que fizeram", para em seguida comparar a edição
de debates à de partidas de futebol: é preciso refletir
o resultado do jogo, argumenta. Depois da enorme polêmica
em 1989, a Globo hoje tem a política de não mais editar
debates.