Brasil será
denunciado à ONU por causa de presídios no Espírito Santo
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11/11/09
- 06:12
da Agência Brasil
Brasília - As organizações não governamentais
(ONGs) internacionais Justiça Global e Conectas vão
apresentar no Conselho de Direitos Humanos das Nações
Unidas (ONU) e na Organização dos Estados Americanos
(OEA) relatório sobre as condições de encarceramento
no Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Vila
Velha (ES) e na Unidade de Internação Socioeducativa
(Unis) em Cariacica, na região metropolitana de Vitória.
Um relatório prévio sobre o DPJ e a
Unis será apresentado amanhã (12) em reunião do Conselho
de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). Participará
da reunião a Alta-Comissária das Nações Unidas para
os Direitos Humanos, Navanethem Pillay.
A Justiça Global e a Conectas visitaram,
na última semana, as duas unidades e, segundo a advogada
Tamara Melo, assistente jurídica da Justiça Global,
verificaram superlotação em celas, casos de tortura,
falta de atendimento médico e manutenção de pessoas
sob condições insalubres. As visitas foram feitas juntamente
com o Conselho de Direitos Humanos da Serra, o Fórum
de Mulheres, o Comitê de Tortura do Espírito Santo e
a Pastoral da Criança.
Na Unis, os adolescentes em conflito
com a lei relataram casos de tortura. “Muitos falaram,
na palavra deles, do 'esculacho': tortura e agressão
física que sofrem com muita frequência dos funcionários
da unidade. Eles contaram sobre ameaças com arma de
fogo, uso de cassetete de borracha, chutes e socos”,
disse Tamara Melo à Agência Brasil. “A tortura foi o
que mais impressionou. Nós vimos um menino com marcas
evidentes, com o olho roxo totalmente inchado. Ele havia
sido espancado dois dias antes, bateram no rosto e na
cabeça”.
Segundo a advogada, os adolescentes
mantidos “apontaram marcas de bala nas paredes das celas,
mostrando que ocorre de os agentes atirarem contra eles,
tanto com arma de fogo quanto com arma de borracha.
Aquilo lá parecia uma unidade prisional de adultos,
como outra qualquer”, informou, acrescentando que viu
policiais andando na unidade com arma de fogo, meninos
transitando algemados e a grande maioria sem estudar
e sem qualquer atividade, em descumprimento ao Estatuto
da Criança e do Adolescente.
“Além disso, vimos outras coisas absurdas
como a superlotação [225 adolescentes para 26 agentes
plantonistas]. Várias celas estavam alagadas, com um
cheiro horrível. Todos os adolescentes reclamaram muito
por não receber atendimento médico”, afirmou.
De acordo com Tamara Melo, a visita
flagrou inclusive a deterioração de instalações novas,
como duas alas inauguradas este ano. “Não dava para
acreditar que tinham sido inauguradas há tão pouco tempo.
Já estavam alagadas, o banheiro dos alojamentos superiores
pingava na parte de baixo, onde as mães visitam seus
filhos”.
Conforme a advogada, alguns adolescentes
reclamam muito de serem mantidos em celas isoladas,
onde não têm direito ao banho de sol. “Eles ficam 'na
tranca', como dizem, sem ver o sol. Nos contaram que
existe uma cela para banho de sol. O que é curioso,
pois banho de sol é para ver o sol e não ficar dentro
de outra cela”. Ela observou que alguns pavilhões parecem
funcionar sob regime disciplinar diferenciado, com adolescentes
totalmente trancados e isolados, uma cela totalmente
fechada. Tamara revelou que alguns adolescentes diziam
preferir ficar no pavilhão onde estavam antes, mesmo
insalubre, com um cheiro horrível, ratos, lixo, fiação
exposta. “Eles disseram que estavam enlouquecendo ali”.
Procurado pela reportagem, o secretário
de Justiça do Espírito Santo, Ângelo Roncalli, disse
que o governo já iniciou a remoção dos adolescentes
da Unis. Uma unidade nova já foi entregue (em Cariacica)
e mais quatro serão entregues (em Linhares e Cachoeiro
do Itapemirim). Além dessas novas unidades, o governo
já realizou duas reformas - uma provisória - na unidade.
Ângelo Roncali se queixou de, apesar
de ter autorizado a visita das organizações não governamentais
na Unis, não ter recebido qualquer relatório. Segundo
ele, os representantes das ONGS não percorreram toda
a unidade e não verificaram os procedimentos de atendimento
médico e de funcionamento de oficinas de capacitação.
“Eles não viram tudo, não quiseram ver”, reclamou.
Mesmo sem ter sido convidado, o secretário
disse à Agência Brasil que pretende acompanhar a próxima
reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana e prestar esclarecimentos sobre o assunto, que
está na pauta.