Após reação
da igreja, Lula recua sobre defesa do aborto.
12/01/10
- 06:33
da Folha Online
Hoje na Folha Depois da reação da Igreja
Católica, o presidente Lula mandou rever o trecho pró-aborto
no decreto do 3° Plano Nacional de Direitos Humanos,
alegando que ele não traduz a posição do governo, informa
a reportagem da colunista Eliane Cantanhêde, publicada
nesta terça-feira (12) pela Folha (a íntegra está disponível
para assinantes do jornal e do UOL).
Pela nova redação, o texto deverá fazer
uma defesa genérica do aborto, no contexto de saúde
pública --para salvar a vida da mãe, por exemplo. Também
haverá alterações na parte que trata da violação de
direitos humanos na ditadura.
Como foi publicado pelo "Diário
Oficial da União", no dia 22 de dezembro, o plano
estabelece "apoiar a aprovação do projeto de lei
que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia
das mulheres para decidir sobre seus corpos".
Na nova redação, será suprimida a parte
que fala da autonomia, pois caracteriza apoio à decisão
íntima de interromper a gestação, mas não é a posição
do governo e de Lula.
Na última sexta-feira (8), d. José
Simão, bispo de Assis (SP) e responsável pelo Comitê
de Defesa da Vida do Regional Sul-1 da CNBB (Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil), que congrega as dioceses
do Estado de São Paulo, disse que a igreja vê as iniciativas
do plano como uma "atitude arbitrária e antidemocrática
do governo Lula".
Polêmica
A polêmica sobre o Programa de Direitos
Humanos teve início no final do ano passado, quando
os comandantes do Exército, general Enzo Martins Peri,
e da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ameaçaram
pedir demissão caso Lula não revogue o trecho do programa
que cria a Comissão da Verdade para apurar torturas
e desaparecimentos durante o regime militar (1964-1985).
Vannuchi, por outro lado, também ameaça
entregar o cargo se Lula recuar no teor do programa.
Em entrevista à Folha, o ministro disse que é "um
fusível removível" no governo e pedirá demissão
caso o texto seja alterado para permitir a investigação
de militantes da esquerda armada durante a ditadura
militar --como exigem Jobim e as Forças Armadas.
Ele condena a tentativa de colocarem
no mesmo nível torturadores e torturados. Uns agiram
ilegalmente, com respaldo do Estado, os outros já foram
julgados, presos, desaparecidos e mortos, comparou o
secretário, citando o próprio presidente Lula, que foi
julgado e condenado a três anos (pena depois revista)
por liderar greves no ABC paulista.
O plano também foi criticado pelo ministro
Reinhold Stephanes (Agricultura), pela CNA (Confederação
Nacional da Agricultura) e pela CNBB (Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil).
Os militares classificaram o documento
como "excessivamente insultuoso, agressivo e revanchista"
às Forças Armadas, enquanto Vannuchi defende investigações
de torturas cometidas por militares.
Lula está no meio do fogo cruzado entre
a área militar e Vannuchi para decidir o que fazer em
relação ao programa.